Papo de Terreiro: Akasá - A comida de todos os Orixás

Akasá - A comida de todos os Orixás

Olá meus Irmãos! Bora pra mais um Papo de Terreiro? o assunto agora é:



As definições mais elementares do acaçá dizem que se trata de uma pasta de milho branco ralado ou mopido, envolvida, ainda quente, em folhas de bananeira. A definição correta, mas extremamente superficial, pois o acaçá é de longe a comida mais importante do candomblé. seu preparo é forma deutilização nos rituais de oferenda. Envolvem preceitos e regulamentos bem rígidos, que nunca podem deixar de ser observados.

Todos os orixás, de Exú a Oxalá, recebem o acaçá. Todas as cerimônias, do ebó mais simples aos sacrifícios de animais, levam acaçá. em rituais de iniciação, de passagens fúnebres e tudo o mais que ocorra em uma casa de candomblé só acontece com a presença de acaçá. a vida e a morte no candomblé se processam à partir desta oferenda fundamental, sem a qual nenhum homem seria poupado dos dissabores e percalços do destino. Quando recorremos à história dos orixás, percebemos o grande mal que a humanidade se submete todas as vezes em que se afasta do poder divino, representado, nesse caso, pelo poderoso Orun, a morada de todas as divindades, e pelo deus supremo, senhor do destino dos homens, OLODUMARÉ, também conhecido como Olorun.

Certa vez, a terra foi acometida por uma terrível seca. Havia anos que não chovia, as mulheres estavam estéreis, o solo infértil, a fome, a doença, a morte assolavam a população. a iminência da destruição lecou os orixás a consultar Ifá, o deus de todos os otráculos, que revelou a necessidade de se fazer uma grande oferenda ao próprio Olodumaré, que há muito já não se ocupava dos problemas da terra nem dos homens. Conforme Transcrição do texto sagrado. Ifá disse aos orixás que:

" Somente se pudessem fazer oferenda, olodumaré teria sempre misericórdia deles. Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo. Foi assim que prepararam a oferenda. Foi assim que prepararam a oferenda. Eles colocaram: uma cabra, uma ovelha, um cachorro, uma galinha, um pombo, um preá, um peixe, um ser humano e um touro selvagem, um pássaro da floresta, um pássaro da savana, um animal doméstico..."

A lista de oferendas segue e noz faz supor que está indicando uma grandeza e não um conjunto de oferendas propriamente dito. em outros termos, era preciso ofertar algo a Olodumaré que pudesse representar todos os seres vivos da Terra, e nesse contexto insere-se o valor do simbólico. Os significados profundos de alguma coisa acabam evocando aquilo que por força das circunstâncias, ou mesmo por impossibilidadaes reais, é, abstraído. todavia, que a oferenda poderia substituir um sacrifício desta proporção, contendo, inclusive, um ser humano?
Só existe uma oferenda capaz de restituir o axé e devolver a paz e a prosperidade na Terra, e lea é justamente o acaçá. Mas o que faz de uma comida aparentemente tão simples a maior das oferendas aos orixás?

será que todos sabem o que realmente é um acaçá?

façamos então uma classificação dos elementos que compõem o acaçá para chegarmos á derradeira conclusão. Primeiramente, é preciso esclarecer que a pasta branca á base de farinha de milho( que fica alguns dias de molho e depois passada pelo pilão ou moinho) chama-se na verdade èkó. Depois de coxear, uma porção da pasta, ainda quente, é envolvida em um pedaço de folha de bananeira (ewé - èkó) para enrijecer (na África é usada outra folha, chamada èpàpo), tornando-se, agora sim, um acaçá.

Percebe-se a fundamental importância da folha de bananeira, uma vez que o èkó só passa a ser acaçá quando envolvido em uma folha verde que lhe atribui uma existência individualizada, pois passa a ser uma porção desprendida de massa, assim como o emi, que dá vida aos seres, é, na verdade, uma parte da atmosfera, ou do próprio Olorun, que todo ser leva para dentro de si, o sopro da vida, o ar que respiramos.

Portanto, o acaçá é um corpo, o simbolo de um ser. A única oferenda que restitui e redistribui o axé.

É importante insistir que o que faz do acaçá um corpo único, eminente representação de um ser, é a folha, seu poderoso invólucro verde, que lhe confere individualidade e força vital diante do poderoso Orun, dos orixás e do grande deus Olodumaré.

Somente a água é tão importante quanto o acaçá, pois não existem substitutos para nenhum dos dois, que são, a exemplo do obi, elementos indispensáveis em qualquer ritual. Ambos configura-se como símbolos da vida, e é justamente para afastar a morte do caminho das pessoas, para que o sacrifício não seja o homem, que são oferecidos.

O acaçá remete ao maior significado que a vida pode ter: a própria vida. E por ser o grande elemento apaziguador, que arranca a morte, a doença, a pobreza e outras mazelas do seio da vida, tornou-se a comida e predilação de todos os orixás.

O grande fundamento

Nem todas as palavras do mundo são sufucuentes para decifrar o valor de um acaçá. Basta admitir que os segredos estão nas coisas mais simples para ver que muitos julgaram insignificantes, a comida mais importante do candomblé, banalizando o sagrado e privilegiando a intuição em detrimento do fundamento.

fato é que quem não faz um bom acaçá não é um bom conhecedor do candomblé, pois as regras e diretrizes da religião dos orixás nunca foram ditadas pela intuição. constituem grandes fundamentos 'cristalizados' ao longo dos anos e anos de tradição. Aos incautos vale afirmar que candomblé não é intuição, mas fundamento sim, e fundamento se aprende.

Fundamento é o segredo compartilhado, o mistério sagrado, o detalhe que faz a diferença e a prova de que ninguém pode enganar o orixá. Aqui, o grande fundamento é que o sangue dos animais sacrificados já mais pode jorrar sobre os igbás sem a presença do elemento pacificador, pois o acaçá simboliza a paz. Quando ofertado e retirado do seu invólucro verde, tornardo-se a comida que agrada todos os orixás, a primeira oferenda que deve ser colocada diretamente no assentamento, juntamente com o obi e a água, antes de qualquer sacrifício.

Muitas vezes o sangue do animal não é colocada diretamente no igbá, a panela onde se faz o assentamento para o orixá. Primeiramente, no candomblé,o ejé(sangue) é batido, porque a 'quentura' do sangue, seu vermelho intenso, agride ou se choca a energia de orixás como Oxalá, por exemplo.

O acaçá deve permanecer fechado, imaculado até o momento de ser entregue ao orixá. Só então é retirado da folha. É como se osagrado tivesse de ficar oculto até a hora da oferenda, prova de que o segredo é quase sempre um elemento consagrado. E o segredo do acaçá é enrolar o èkó na folha da bananeira, é o que mantém um terreiro de candomblé de pé. não existe acaçá que não seja enrolado na folha de bananeira.

Entretanto, a imprudência vigora em muitos terreiros e não raras vezes se ouve falar de 'novas iguarias' apresentadas como acaçá. Os mais comuns são os 'acaçás de pia' e 'de forma'. No primeiro caso, a massa de Èkó, mais grossa, é colocada ás colheradas sobre os mármores das pias, onde os bolinhos esfriam antes de serem utilizados nos ritos. na segunda 'receita', a massa é espalhada em uma forma e posteriormente cortada em quadradinhos. Este é um procedimento incorreto e condenável, e as pessoas que agem assim estão fadadas ao insucesso e não podem ser consideradas pessoas de Axé.

Não há candomblé sem acaçá, nem acaçá sem folha. a religião dos orixás não admite modificações na sua essência, e esta comida é essencial, portanto, inviolável. Há sacerdotes que oferecem até bois em sacrifício a seus orixás e acabam se esuqcendo de que o acaçá traduz o saber, e de nada adianta o boi sem acaçá.

Primeiro vem o acaçá, antes dele só a vida. Logo, a folha de bananeira guarda uma vida. Deixar o èkó exposto é o mesmo que deixar a vida vulnerável. Eis o grande fundamento.]Que se arrependam, pois, os que menosprezaram o maior entre todos os fundamentos do candomblé, lastimem para sempre esta imprudência e reconheçam que seu insucesso é decorrência de sua ignorância. Saibam agora que nos lugares mais óbvios se escondem os maiores segredos. Jamais banalizem o sagrado, porque o ritual admite alterações na forma, mas nunca na essência. No mundo de hoje não há lugar para o despreparo, portanto, quem não souber fazer um acaçá que saia do candomblé.

Na Bahia não há quem não conheça, imprescindível nos rituais de candomblé, mas também muito apreciado como acompanhamento de comidas de azeite. prato predileto de Oxalá e de todos os orixás é também o mais poderoso ebó, único que arranca a morte do seio da vida.

manter-se imaculado até o momento da oferenda é o que garante a eficácia do acaçá, portanto a folha de bananeira (e no Brasil nenhuma outra pode substituí-la) é fundamental e prova, acima de tudo, o quanto um Babalorixá ou Iyalorixá são conhecedores da religião que professam. os grandes sacerdotes de candomblé, conhecidos por sua seriedade, saber e sucesso, enrolam o Èkó na folha, sabem fazer acaçá.

Este é o segredo!

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Asé!